29 outubro 2009

platonismo delirante



talvez se alguém que tivesse a audácia
de me abrir as gavetas do espírito
para ler minhas mais secretas cartas
encontraria vestígios - já esmaecidos
de sutis emoções sem conta
de compromissos a manter
de lágrimas de não o fazer
e culpas por não ser capaz

longas cartas de vermelha intimidade
relatos róseos de dor e saudade
e brancas palavras de despedida

mas quem sabe a julgar pelos sonhos
que me escapam através dos olhos
talvez se pudesse compreender
o intenso acúmulo de emoção
talvez maior que tantos vínculos
trombetados para o mundo todo ouvir.

(dw 2009)

sublimação



acho mesmo que
o vínculo entre as almas
é algo tão raro e tênue
quanto cada uma das gotas
do orvalho suave da manhã
sobre a teia de aranha
que faísca ao sol

os finíssimos fios
suportando sem se romper
a pesada delicadeza d'água
- intensa e imprevisível
que pouco a pouco
vai se desfazendo no ar
sob os raios dourados

é o que tantos as ciências exatas
quanto os grandes poetas do amor
em uníssono chamaram 'sublimação'.

(dw 2009)

caminhos que se cruzam e se entremeiam



nestas vias que nos aproximaram
e que talvez nos separarão um dia
- está nossa existência
diluída em curvas sutis -
e transpondo obstáculos caminhamos nós
em tantas vielas em que nos perdemos
nas encruzilhadas em que tentamos optar
pela direção em que devemos seguir
encarando o medo ao olhar para trás
mas na certeza de que os passos incertos
um dia nos conduzirão a tantas respostas
que um dia buscamos em nossa travessia.

(dw 2009)

o mundo - eduardo galeano



'cada pessoa brilha com luz própria
entre todas as outras
- não existem duas fogueiras iguais.
existem fogueiras grandes
e fogueiras pequenas
e fogueiras de todas as cores.
existe gente de fogo sereno
que nem percebe o vento
e gente de fogo louco
que enche o ar de chispas.
alguns fogos, fogos bobos
não alumiam nem queimam
mas ouros incendeiam a vida
com tanta vontade que é impossível
olhar para eles sem pestanejar
e quem chegar perto pega fogo.'

(eduardo galeano)

amigos - oscar wilde




'escolho meus amigos não pela pele ou
outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
tem que ter brilho questionador
e tonalidade inquietante.
fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
deles não quero resposta, quero o meu avesso.
escolho meus amigos pela
alma lavada e pela cara exposta.
quero amigos sérios, daqueles que fazem
da realidade sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
não quero amigos adultos nem chatos
quero-os metade infância
e outra metade velhice.
crianças, para que não esqueçam
o valor do vento no rosto
e velhos, para que nunca tenham pressa.
tenho amigos para saber quem eu sou.
pois os vendo, loucos e santos,
bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que normalidade
é uma ilusão imbecil e estéril.

(oscar wilde)