22 novembro 2009

gabriele romagnoli - con zed nel cuore



quando ela lhe disse: 'vou-me embora' zed não replicou.
nem uma palavra. esperou que desse as costas à mesa e
lhe cravou a faca de cozinha entre as costelas - até o fim.

guardou o corpo no armário e limpou o chão com cuidado:
água e álcool - depois uma passada de cera.

por toda a noite pensou no que fazer com o cadáver.
ao amanhecer, a solução. saiu da cama - vestiu uma camisa
velha jeans já desbotados e separou uma faca de açougueiro.

abriu o armário outra vez e ergueu o cadáver colocando-o
sobre a mesa e - com a faca de açougueiro a cortou em pedaços.

pequenos pesos que depois guardou em sacos plásticos - eram
pouco mais de trinta e ele os guardou no congelador.
se livrou dos restos atirando-os à caldeira.

novamente limpou o apartamento - abriu as janelas para o
ar puro. quando terminou foi que lhe veio o apetite.
abriu a geladeira: vazia. do congelador então tirou um
dos pacotes e colocou o conteúdo no forno.

assim dia após dia, comeu sua mulher.
achando por vezes insípida, por vezes dura demais
- exatamente como em vida.

para hoje, domingo, tem o último dos pacotes, o do coração.
quando engoliu a primeira garfada, sentiu um sabor
diferente, novo. atõnito percebe que é seu próprio sabor
e que ela insípida e dura - decidida a ir-se embora
as costas já voltadas, ainda o levava no coração.
deseperado de náusea, caiu ao chão perdendo a consciência.

'morte por envenenamento devido à ingestão de remorso
em quantidade superior ao limite de tolerância'
está escrito no laudo médico.

(gabriele romagnoli - navi in bottiglia)
'corre - não precisamos de mais um bras cubas
morto por uma idéia fixa e uma pneumonia mal curada!'
(kauan negri)

21 novembro 2009

Men are from Earth, women are from Earth. Deal with it.

Women like silent men, they think they're listening.

cartola - autonomia

____________________________

é impossível
nesta primavera - eu sei
impossível pois longe estarei
mas pensando
em nosso amor - amor sincero
ai! se eu tivesse autonomia
se eu pudesse gritaria
não vou, não quero
escravizaram assim um pobre coração
é necessário a nova abolição
pra trazer de volta a minha liberdade
se eu pudesse gritaria amor
se eu pudesse brigaria amor
não vou, não quero.

_______________cartola_______

cartola - o mundo é um moinho



ainda é cedo amor
mal começaste a conhecer a vida
já anuncias a hora de partida
sem saber mesmo o rumo que irás tomar

preste atenção querida
embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida
em pouco tempo não serás mais o que és

ouça-me bem amor
preste atenção - o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
vai reduzir as ilusões a pó

preste atenção querida
de cada amor tu herdarás só o cinismo
quando notares estás à beira do abismo
abismo que cavaste com os teus pés...

(cartola)

20 novembro 2009

the kinks - run



remember how we used
to laugh away those hours
we would spend
we thought they'd last forever
Oh - though I must go,
I know the pain I leave
but oh - these things will change
'cause nothing last forever

for now at last
I see all life as one
all children are my own
I'll never be alone
please don't cry
for there's a brighter sun
that allows us to be free
allows us to be bound

run run- find a place of my own
yeah - somewhere where I can grow
got to run run
find a place of my own
somewhere where I belong
yeah - somewhere where I can grow

if there was
a way to tell you
exactly how I feel
all I can say
that in my heart
you'll always be

(the kinks)

13 novembro 2009

vivre sa vie 1962 - nana e a filosofia



nana:
'o amor não devia
ser a única verdade?'

o filósofo:
'para isso, o amor deveria
ser sempre verdadeiro
- nós devemos pensar
e para os pensamentos
precisamos de palavras
- um instante de pensamento
apenas pode ser recuperado
através do uso de palavras
- não se pode desassociar
o pensamento das palavras
que o expressam.'

nana:

'quanto mais se fala
menos as palavras significam.'

(cena do filme 'vivre sa vie'
jean-luc godard 1962)

hoobastank - the reason



'I'm not a perfect person
there's many things I wish I didn't do
but I continue learning
I never meant to do those things to you
and so, I have to say before I go
that I just want you to know

I've found out a reason for me
to change who I used to be
a reason to start over new
and the reason is you

I'm sorry that I hurt you
It's something I must live with everyday
and all the pain I put you through
I wish that I could take it all away
and be the one who catches all your tears
that's why I need you to hear'

(hoobastank)

12 novembro 2009

white rabbit - jefferson airplane



'one pill makes you larger
and one pill makes you small
and the ones that mother gives you
don't do anything at all

go ask alice
when she's ten feet tall
and if you go chasing rabbits
and you know you're going to fall
tell 'em a hookah-smoking caterpillar
has given you the call

call alice
when she was just small
when the men on the chessboard
get up and tell you where to go
and you've just had some kind of mushroom
and your mind is moving low

go ask alice
I think she'll know
when logic and proportion
have fallen sloppy dead
and the white knight is talking backwards
and the red queen's 'off with her head!'
remember what the dormouse said:
'feed your head
feed your head
feed your head'

(jefferson airplane)

09 novembro 2009

clarice lispector



'havia a levíssima embriaguez de andarem juntos,
a alegria como quando
se sente a garganta um pouco seca
e se vê que por admiração
se estava de boca entreaberta:
eles respiravam de antemão
o ar que estava à frente,
e ter esta sede era a própria água deles.

andavam por ruas e ruas falando e rindo,
falavam e riam para dar matéria peso
à levíssima embriaguez que era
a alegria da sede deles.

por causa de carros e pessoas,
às vezes eles se tocavam,
e ao toque - a sede é a graça,
mas as águas são uma beleza de escuras -
e ao toque brilhava o brilho da água deles,
a boca ficando um pouco mais seca de admiração,
como eles admiravam estarem juntos!

até que tudo se transformou em não.
tudo se transformou em não
quando eles quiseram essa mesma alegria deles.
então a grande dança dos erros.
o cerimonial das palavras desacertadas.
ele procurava e não via,
ela não via que ele não vira,
ela que, estava ali, no entanto.
no entanto ele que estava ali.
tudo errou,
e havia a grande poeira das ruas,
e quanto mais erravam,
mais com aspereza queriam,
sem um sorriso.

tudo só porque tinham prestado atenção,
só porque não estavam bastante distraídos.
só porque, de súbito exigentes e duros,
quiseram ter o que já tinham.
tudo porque quiseram dar um nome;
porque quiseram ser, eles que eram.

foram então aprender que,
não se estando distraído,
o telefone não toca,
e é preciso sair de casa
para que a carta chegue,
e quando o telefone finalmente toca,
o deserto da espera já cortou os fios.
tudo, tudo por não estarem mais distraídos.'

(clarice lispector)

tentação - clarice lispector



ela estava com soluço. e como se não bastasse
a claridade das duas horas, ela era ruiva.
na rua vazia as pedras vibravam de calor -
a cabeça da menina flamejava.

sentada nos degraus de sua casa, ela suportava.
ninguém na rua, só uma pessoa esperando
inutilmente no ponto de bonde.

e como se não bastasse
seu olhar submisso e paciente,
o soluço a interrompia de momento a momento,
abalando o queixo
que se apoiava conformado na mão.
que fazer de uma menina ruiva com soluço?
olhamo-nos sem palavras,
desalento contra desalento.
na rua deserta nenhum sinal de bonde.
numa terra de morenos,
ser ruivo era uma revolta involuntária.
que importava se num dia futuro sua marca
ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher?
por enquanto ela estava sentada
num degrau faiscante da porta, às duas horas.

o que a salvava era
uma bolsa velha de senhora,
com alça partida.
segurava-a com um amor conjugal
já habituado, apertando-a contra os joelhos.

foi quando se aproximou
a sua outra metade neste mundo,
um irmão do grajaú.
a possibilidade de comunicação
surgiu no ângulo quente da esquina,
acompanhando uma senhora,
e encarnado na figura de um cão.
era um basset lindo e miserável,
doce sob a sua fatalidade.
era um basset ruivo.

lá vinha ele trotando, à frente de sua dona,
arrastando seu comprimento.
desprevenido, acostumado, cachorro.
a menina abriu os olhos pasmados.
suavemente avisado,
o cachorro estacou diante dela.
sua língua vibrava.
ambos se olhavam.

entre tantos seres que estão prontos
para se tornarem donos de outro ser,
lá estava a menina que viera ao mundo
para ter aquele cachorro.
ele fremia suavemente, sem latir.
ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria.
quanto tempo se passava?
um grande soluço sacudiu-a desafinado.
ele nem sequer tremeu.
também ela passou por cima do soluço
e continuou a fitá-lo.
os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

que foi que se disseram? não se sabe.
sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente,
pois não havia tempo.
sabe-se também que sem falar eles se pediam.
pediam-se, com urgência, com encabulamento,
surpreendidos.

no meio de tanta vaga impossibilidade
e de tanto sol, ali estava a solução
para a criança vermelha.
e no meio de tantas ruas a serem trotadas,
de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos
- lá estava uma menina,
como se fora carne de sua ruiva carne.
eles se fitavam profundos, entregues,
ausentes de grajaú.
mais um instante e o suspenso sonho se quebraria,
cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

mas ambos eram comprometidos.
ela com sua infância impossível,
o centro da inocência que só se abriria
quando ela fosse uma mulher.
ele, com sua natureza aprisionada.

a dona esperava impaciente sob o guarda-sol.
o basset ruivo afinal despregou-se da menina
e saiu sonâmbulo. ela ficou espantada,
com o acontecimento nas mãos,
numa mudez que nem pai nem mãe compreendiam.

acompanhou-os com os olhos pretos que mal acreditavam,
debruçada sobre a bolsa e os joelhos,
até vê-lo dobrar a outra esquina.

mas ele foi mais forte que ela.
nem uma só vez olhou para trás.

(clarice lispector)

okaerinasai.

maybe kinda lost sassy girl
with touches here and there
of woody allen self-analysis
& amy winehouse daily routine...

but now black in black
trilha o caminho do eremita
- em sintonia com o dharma
certa de que bem aos poucos
seus olhos em technicolor
voltarão a registrar o mundo
nas cores de amélie poulain.

(dw 2009)

para uma avenca partindo - caio fernando abreu



'olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende?

olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio?

falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viveras superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende?

oor favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualqueratraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é?

por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?

dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um diadestes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.'

(caio fernando abreu)

além do ponto - caio fernando abreu



'chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chhuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos.

mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era.

começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar, mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela, essas coisas do inverno, e mais ainda, eu precisava deter a vontade de voltar atrás ou ficar parado, pois tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas, não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto.

um carro passou mais perto e me molhou inteiro, sairia um rio das minhas roupas se conseguisse torcê-las, então decidi na minha cabeça que depois de abrir a porta ele diria qualquer coisa tipo mas como você está molhado, sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, agora pelo caminho de árvores sem folhas e a rua interrompida que eu revia daquele jeito estranho de já ter estado lá sem nunca ter, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo, via apenas um sujeito molhado sem capa nem guarda-chuva, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito.

era a mim que ele chamava, pelo meio da cidade, puxando o fio desde a minha cabeça até a dele, por dentro da chuva, era para mim que ele abriria sua porta, chegando muito perto agora, tão perto que uma quentura me subia para o rosto, como se tivesse bebido o conhaque todo, trocaria minha roupa molhada por outra mais seca e tomaria lentamente minhas mãos entre as suas, acariciando-as devagar para aquecê-las, espantando o roxo da pele fria, começava a escurecer, era cedo ainda, mas ia escurecendo cedo, mais cedo que de costume, e nem era inverno, ele arrumaria uma cama larga com muitos cobertores, e foi então que escorreguei e caí e tudo tão de repente, para proteger a garrafa apertei-a mais contra o peito e ela bateu numa pedra, e além da água da chuva e da lama dos carros a minha roupa agora também estava encharcada de conhaque, como um bêbado, fedendo, não beberíamos então, tentei sorrir, com cuidado, o lábio inferior quase imóvel, escondendo o caco do dente, e pensei na lama que ele limparia terno, porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta.

chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorri mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora.

e bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca.'

(caio fernando abreu)

08 novembro 2009

além do ponto - caio fernando abreu

'chovia, chovia, chovia e eu ia indo
por dentro da chuva ao encontro dele,
sem guarda-chuva nem nada,
eu sempre perdia todos pelos bares,
só levava uma garrafa de conhaque barato
apertada contra o peito,
parece falso dito desse jeito,
mas bem assim eu ia pelo meio da chuva,
uma garrafa de conhaque na mão
e um maço de cigarros molhados no bolso.

teve uma hora que eu podia ter tomado
um táxi, mas não era muito longe,
e se eu tomasse um táxi não poderia comprar
cigarros nem conhaque,
e eu pensei com força então
que seria melhor chegar molhado da chuva,
porque aí beberíamos o conhaque,
fazia frio, nem tanto frio,
mais umidade entrando pelo pano das roupas,
pela sola fina esburacada dos sapatos,
e fumaríamos beberíamos sem medidas,
haveria música, sempre aquelas vozes roucas,
aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim,
ducha morna distendendo meus músculos.

mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio,
o nariz começava a escorrer,
eu limpava com as costas das mãos e o
líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos,
eu enfiava as mãos avermelhadas
fundo dos bolsos e ia indo,
eu ia indo e pulando as poças d'água
com as pernas geladas.
Tão geladas as pernas e os braços e a cara
que pensei em abrir a garrafa para beber um gole,
mas não queria chegar na casa dele meio bêbado,
hálito fedendo,
não queria que ele pensasse que eu andava bebendo,
e eu andava, todo dia um bom pretexto,
e fui pensando também que ele ia pensar
que eu andava sem dinheiro,
chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava,
estômago dolorido de fome,
e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone,
e eu andava, roxas olheiras,
teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir,
se sorrisse, e quase certamente sim,
quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado
e pensasse que eu andava relaxando,
sem ir ao dentista, e eu andava,
e tudo que eu andava fazendo e sendo
eu não queria que ele visse nem soubesse,
mas depois de pensar isso me deu um desgosto
porque fui percebendo percebendo,
por dentro da chuva,
que talvez eu não quisesse
que ele soubesse que eu era eu, e eu era.

começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça,
essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu,
encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía
e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente,
se houvesse, e não lembrava de nenhum,
ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta
que eu tentava atravessar sem conseguir,
os carros me jogando água e lama ao passar,
mas eu não podia, ou podia mas não devia,
ou podia mas não queria ou não sabia mais
como se parava ou voltava atrás,
eu tinha que continuar indo ao encontro dele,
ou podia mas não queria ou não sabia mais
como se parava ou voltava atrás,
eu tinha que continuar indo ao encontro dele,
que me abriria a porta,
o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira,
pinhões, vinho quente com cravo e canela,
essas coisas do inverno, e mais ainda,
eu precisava deter a vontade
de voltar atrás ou ficar parado,
pois tem um ponto, eu descobria,
em que você perde o comando das próprias pernas,
não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto.

Um carro passou mais perto e me molhou inteiro, sairia um rio das minhas roupas se conseguisse torcê-las, então decidi na minha cabeça que depois de abrir a porta ele diria qualquer coisa tipo mas como você está molhado, sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, agora pelo caminho de árvores sem folhas e a rua interrompida que eu revia daquele jeito estranho de já ter estado lá sem nunca ter, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo, via apenas um sujeito molhado sem capa nem guarda-chuva, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito. Era a mim que ele chamava, pelo meio da cidade, puxando o fio desde a minha cabeça até a dele, por dentro da chuva, era para mim que ele abriria sua porta, chegando muito perto agora, tão perto que uma quentura me subia para o rosto, como se tivesse bebido o conhaque todo, trocaria minha roupa molhada por outra mais seca e tomaria lentamente minhas mãos entre as suas, acariciando-as devagar para aquecê-las, espantando o roxo da pele fria, começava a escurecer, era cedo ainda, mas ia escurecendo cedo, mais cedo que de costume, e nem era inverno, ele arrumaria uma cama larga com muitos cobertores, e foi então que escorreguei e caí e tudo tão de repente, para proteger a garrafa apertei-a mais contra o peito e ela bateu numa pedra, e além da água da chuva e da lama dos carros a minha roupa agora também estava encharcada de conhaque, como um bêbado, fedendo, não beberíamos então, tentei sorrir, com cuidado, o lábio inferior quase imóvel, escondendo o caco do dente, e pensei na lama que ele limparia terno, porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta.

Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorri mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca.

funeral blues



'stop all the clocks, cut off the telephone
prevent the dog from barking with a juicy bone
silence the pianos and with muffled drum
bring out the coffin, let the mourners come

let aeroplanes circle moaning overhead
scribbling on the sky the message 'he is dead'
put crepe bows round the white necks of the public doves,
let the traffic policemen wear black cotton gloves

he was my north, my south, my east and west,
my working week and my sunday rest,
my noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever - I was wrong


the stars are not wanted now - put out every one
pack up the moon and dismantle the sun
pour away the ocean and sweep up the woods
for nothing now can ever come to any good.'

(w.h. auden)

do filme 'quatro casamentos e um funeral'

06 novembro 2009

yeah i know when i stopped poetry...
i was lost in my own biografism,
protagonism
& woody allen self-analysis.
but i promise to be back
as soon as my heart
can beat that fast again.

05 novembro 2009

it was a hot sunny day
there were birds singing
and flowers and happy faces
it ought to have been oh so
very happy and peaceful.

but it didn't feel like that
it felt - somehow - tragic
as though all what
was going to happen
was already mirrored there.

04 novembro 2009

renúncia

talvez
o mais duro dos sentimentos sombrios
seja este que sempre decorre
da premente necessidade de renúncia
abrir mão de tantos apegos
largar o conforto dos elos
deixar enfim afrouxar os vínculos

talvez
mais ampla do que a tristeza
mais irremediável que o luto
a renúncia vem sempre de dentro
para destruir o que se construiu
acabar com o que se teve
abrindo mão de algo belo e raro
num último esforço de impedir
uma guerra de continuar.

by dani weber 2008

* este é um poema antigo
e foi um pouco modificado.

03 novembro 2009

fey

she knows she can often display
an otherworldly magical
or fairylike way of knowledge
while watching every life aspect

and she may also show a sort of
strangely visionary power - fey -
in her deep clairvoyant heart
and will accept anyone
as presented but still hurts
whenever there is evil

in every cell of her body and soul
she can feel magic when it comes
even if appearing touched or crazy
there is deep in her peaceful eyes
the energy to keep growing inside
as she smiles as if under a spell.


(dw 2009)

fica proibido - pablo neruda



'fica proibido chorar sem aprender
levantar-se um dia sem saber o que fazer
ter medo das tuas recordações

fica proibido não sorrir ante os problemas
não lutar pelo que queres
abandonar tudo por medo
não transformar em realidade teus sonhos

fica proibido não demonstrar o teu amor
fazer com que alguém pague
pelas tuas dúvidas e pelo teu mau humor

fica proibido deixar os teus amigos
não tentar compreender aquilo que viveram juntos
chamá-los somente quando precisa deles

fica proibido não seres tu perante todos
fingir para as pessoas que não te importas
esquecer todos os que te querem

fica proibido não fazeres as coisas para ti mesmo,
não fazeres o teu destino,
ter medo da vida e dos teus compromissos,
não viver cada dia como se fosse o último.'

(pablo neruda)
a vida não pára -
só porque te furam o coração.

não entendo - clarice lispector


____________________________
'isso é tão vasto que ultrapassa
qualquer entender.
entender é sempre limitado.
mas não entender
pode não ter fronteiras.
sinto que sou muito mais completa
quando não entendo.

não entender é um dom.
o bom é ser inteligente
e não entender.
é uma benção estranha
como ter loucura sem ser doida.
é um desinteresse manso
é uma doçura de burrice.

só que de vez em quando
vem a inquietação:
quero entender um pouco.

não demais:
mas pelo menos
entender que não entendo.'

_________clarice lispector_______

02 novembro 2009

auguries of innocence - william blake



'every night and every morn
some to misery are born.
every morn and every night
some are born to sweet delight.
some are born to sweet delight,
some are born to endless night.'


toda noite e toda manhã
alguns nascem para o sofrimento.
toda manhã e toda noite
alguns nascem para a doce alegria.
alguns nascem para a doce alegria,
alguns nascem para a noite eterna.

let's face the music & dance



there may be trouble ahead
but while there's moonlight
& music & love & romance
let's face the music & dance

before the fiddlers have fled
before they ask us to pay the bill
& while we still have a chance
let's face the music & dance

soon we'll be without the moon
humming a different tune
& then there may be
teardrops to sheld

but while there's moonlight
& music & love & romance
let's face the music & dance dance
let's face the music & dance.




talvez tenhamos problemas pela frente
mas enquanto há luar
e música e amor e romance
vamos encarar a música e dançar

antes que os violinistas desistam
antes que nos peçam para pagar a conta
e enquanto ainda tivermos a chance
vamos encarar a música e dançar

em breve estaremos sem o luar
murmurando outras melodias
e então talvez haja algumas lágrimas
mas enquanto há luar
e música e amor e romance
vamos encarar a música e dançar.'

boy with a coin - iron & wine




'a boy with a coin he found in the weeds
with bullets and pages of trade magazines
close to a car that flipped on the turn
- when god left the ground to circle the world

a girl with a bird she found in the snow
then flew up her gown and that's how she knows
that god made her eyes for crying at birth
- then left the ground to circle the earth

a boy with a coin he crammed in his jeans
then making a wish he tossed in the sea
walked to a town that all of us burn
- when god left the ground to circle the world'



um garoto com uma moeda que achou no bosque
junto a balas e páginas de revistas de finanças
perto de um carro que capotara na curva
- quando deus deixou o chão para percorrer o mundo

uma garota com um pássaro que achou na nevasca
ele voou sob seu vestido e é assim que ela sabe
que deus fez seus olhos para chorarem ao nascer
- e então deixou o chão para percorrer a terra

um garoto com uma moeda no bolso da calça jeans
e então ele fez um desejo e jogou-a no mar
andou para a cidade que onde todos nós queimamos
- quando deus deixou o chão para rodar pelo mundo.

01 novembro 2009

alguns poemas de paulo leminski




'não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase.'

__paulo leminski__



'vida e morte
amor e dúvida
dor e sorte

quem for louco
que volte.'
__paulo leminski__



'meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa
presença
olhar
lembrança
calor
meu amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão'
__paulo leminski__



'quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e um olhar vira romance'
_________paulo leminski__



'sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora
calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa.'
__________paulo leminski__

harvest moon - neil young



'come a little bit closer
hear what I have to say
just like children sleepin'
we could dream this night away

but there's a full moon risin'
let's go dancin' in the light
we know where the music's playin'
let's go out and feel the night

because I'm still in love with you
I want to see you dance again
because I'm still in love with you
on this harvest moon

when we were strangers
I watched you from afar
when we were lovers
I loved you with all my heart

but now it's gettin' late
and the moon is climbin' high
I want to celebrate
see it shinin' in your eye

because I'm still in love with you
I want to see you dance again
because I'm still in love with you
on this harvest moon.'

lua na fase cheia - wikipédia



uma das fases da lua
quando a sua totalidade
é refletida na terra
é chamada de lua cheia
- quando ocorrem
duas luas cheias
em um mesmo mês
o evento é conhecido
pelo nome de lua azul.

(wikipédia, a enciclopédia livre)
'o que fazemos
se não sabemos
ah não sabemos
nem o que somos
nem o que temos
e muito menos
ah, muito menos
pra onde vamos
será que vamos
onde é que estamos
se é que estamos
onde julgamos
mas não sabemos
ah, não sabemos
o que podemos
e não fazemos.'

(secos & molhados)